Em maio de 2025, o presidente-executivo da fintech sueca Klarna, Sebastian Siemiatkowski, admitiu que a empresa "foi longe demais" ao substituir grande parte do atendimento ao cliente por um assistente de IA. A frase que resume a virada de rota foi outra: é tão crítico deixar claro ao cliente que sempre haverá uma pessoa, se ele quiser. A Klarna estava voltando a contratar atendentes humanos.

O detalhe que costuma passar despercebido nessa história não é o número de vagas reabertas. É o motivo declarado pelo próprio executivo: o custo pesou demais na decisão, e o resultado foi qualidade mais baixa. A empresa não tinha decidido, com antecedência, onde a IA deveria parar — e descobriu o limite depois que o cliente já sentia a falta dele.

O caso Klarna não é isolado. Levantamento da consultoria de pesquisa Metrigy com consumidores nos Estados Unidos, publicado no fim de 2025, encontrou que 84,7% preferem interagir com uma pessoa em vez de um agente de IA — e 80,1% mantêm essa preferência mesmo quando garantido que a IA resolveria o problema. Para quem decide sobre atendimento automatizado, o dado relevante não é sobre capacidade técnica. É sobre onde a linha do "sozinho" deveria ter terminado.

É tão crítico deixar claro ao cliente que sempre haverá uma pessoa, se ele quiser.

Sebastian Siemiatkowski, presidente-executivo da Klarna, 2025

O preço de tirar a pessoa do caminho

Para além do caso Klarna, o padrão aparece em pesquisa após pesquisa. A CX Mag Today, citando o relatório de tendências de atendimento de 2026 da Glance, registrou que 75% dos consumidores relatam frustração com atendimento automatizado por IA — mesmo quando a resposta chega rápido. Quase 90% dizem confiar menos na marca quando a opção de falar com uma pessoa desaparece por completo. Um em cada três (34%) afirma que o atendimento por IA "tornou as coisas mais difíceis", não mais fáceis.

O ponto em comum entre esses levantamentos e o caso Klarna é revelador: a insatisfação não nasce, na maioria das vezes, de a IA responder errado. Nasce de a IA ser a única opção. A pesquisa da Metrigy mostra isso com clareza: mesmo garantindo que o problema seria resolvido, a maioria ainda prefere uma pessoa — porque confia mais que será entendida, e porque explicar o problema uma vez para um humano parece mais seguro do que repetir para um sistema.

Isso muda o que "consertar o atendimento por IA" realmente significa. Não é treinar um modelo melhor, nem escrever respostas mais educadas. É decidir, antes de qualquer conversa acontecer, em que ponto exato a IA para de decidir sozinha — e garantir que esse ponto exista de fato, não só no discurso da empresa.

A Klarna reconheceu o próprio erro em público, sob os olhos do mercado. A maioria das empresas que automatiza atendimento não vai ter esse tipo de visibilidade: vai perder cliente em silêncio, sem que ninguém escreva um comunicado explicando o motivo.

O escalonamento que falha sozinho

O escalonamento que falha sozinho

A resposta mais comum a essa frustração é adicionar um botão de "falar com um atendente" ao final do fluxo de IA. Na prática, esse botão resolve menos do que parece.

Levantamento da Salesforce sobre o comportamento do consumidor diante de agentes de IA encontrou que 45% das pessoas ficam mais dispostas a usar um assistente automatizado quando existe um caminho de passagem para uma pessoa definido com clareza de antemão. O inverso também vale: quando esse caminho não é claro — quando o botão existe, mas ninguém sabe o que acontece depois de apertá-lo — a desconfiança permanece, mesmo com a opção ali.

Existe ainda um problema mais simples, que nenhum botão resolve sozinho: se a passagem para a pessoa não carrega o histórico da conversa, o cliente começa de novo. Repetir o problema para alguém que não sabe nada do que já foi dito é, para quem está do outro lado, quase tão frustrante quanto não ter a opção de falar com uma pessoa.

O erro comum é tratar essa passagem como um recurso de interface — um link a mais no menu — quando na verdade é uma decisão de processo: o que a IA nunca resolve sozinha, quem recebe o caso, com que informação, e em quanto tempo.

O que precisa existir na prática

Fechar essa lacuna exige mecanismos concretos, não uma promessa genérica de "atendimento humanizado".

Limite de escopo declarado antes da conversa começar. A lista do que a IA nunca decide sozinha — cancelamento, desconto, exceção de prazo, qualquer promessa com efeito contratual — precisa existir por escrito antes de o primeiro cliente conversar com o assistente, não ser descoberta caso a caso.

Aprovação humana antes da ação, não depois da reclamação. Quando a conversa toca um desses pontos sensíveis, o fluxo certo é parar e pedir confirmação de uma pessoa antes de prometer qualquer coisa ao cliente — dentro da própria conversa, sem reiniciar o atendimento em outro canal.

Passagem com o histórico completo, nunca do zero. Quem assume a conversa recebe o que já foi dito, o que já foi tentado e o que o cliente já explicou. É exatamente o ponto que o levantamento da Salesforce liga à confiança: passagem sem contexto é só uma segunda fila.

Registro do que foi prometido, com data e base. Cada resposta relevante fica associada ao documento ou à política que a sustentou. Se um cliente disser depois "a IA me garantiu isso", a empresa consegue checar o que realmente aconteceu.

É assim que a Skyller foi desenhada: aprovação humana antes de uma ação sensível e passagem de conversa com o histórico completo, como padrão — não como algo que a equipe precisa lembrar de configurar.

O ganho de decidir isso antes

O ganho de decidir isso antes

O benefício de definir esse limite com antecedência não aparece só na experiência do cliente. Aparece também na forma como a empresa evita decisões drásticas depois.

A Klarna precisou fazer duas coisas ao mesmo tempo, sob os olhos do mercado: admitir o erro publicamente e reconstruir uma equipe de atendimento do zero, num momento delicado, pouco antes de abrir capital. Uma empresa que desenha o ponto de passagem desde o início não enfrenta essa escolha binária entre "só IA" e "voltar tudo para pessoas" — ela ajusta o limite conforme aprende, sem precisar de um comunicado à imprensa para isso.

Há também um ganho de leitura interna que raramente aparece nas manchetes: quando cada passagem para uma pessoa fica registrada, a empresa começa a enxergar um padrão que antes era invisível — que tipo de pedido mais escapa do roteiro automático, em qual etapa do processo, com que frequência. Esse padrão é o material que ajuda a decidir onde investir a próxima rodada de automação, em vez de adivinhar.

A lição vale tanto ou mais para empresas brasileiras e latino-americanas, onde parte crescente do atendimento já roda por assistentes automatizados em canais como WhatsApp. O ponto de passagem para uma pessoa não é um detalhe de implementação — é uma decisão de negócio que precisa ser tomada antes do primeiro cliente conversar com o assistente, não depois da primeira reclamação.

Perguntas para decidir o limite

Antes de expandir o atendimento por IA para mais um canal, vale levar estas perguntas para a próxima reunião com jurídico e operações:

  1. Existe uma lista escrita do que a IA nunca decide sozinha? Cancelamento, desconto e qualquer promessa contratual deveriam estar nela — definidos antes, não descobertos numa conversa real.
  2. Quando alguém pede para falar com uma pessoa, o histórico da conversa vai junto? Se a resposta for não, o botão de passagem resolve menos do que parece.
  3. A empresa sabe, hoje, quantas conversas pediram uma pessoa e não conseguiram no último trimestre? Se a resposta for "não sabemos", essa é a primeira lacuna a fechar.
  4. Existe registro do que foi prometido ao cliente, e com base em qual documento? Sem isso, uma reclamação vira palavra contra palavra.

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