Em 29 de janeiro de 2025, o órgão responsável por direitos autorais nos Estados Unidos publicou a segunda parte de um relatório sobre IA e direito autoral, respondendo a uma pergunta que já não era teórica em nenhuma empresa que publica texto todos os dias: um conteúdo gerado por IA pode ser protegido como propriedade de quem o publicou? A resposta, nas palavras da própria responsável pelo órgão, Shira Perlmutter: proteção existe "onde essa criatividade se expressa por meio do uso de sistemas de IA" — ou seja, quando uma pessoa decidiu o suficiente do conteúdo. Simplesmente digitar um comando não basta.
Em maio de 2025, o mesmo órgão divulgou a terceira parte do relatório, dedicada ao uso de obras protegidas para treinar sistemas de IA — o outro lado da mesma moeda, e o assunto das disputas judiciais que hoje envolvem grandes veículos de imprensa e empresas de IA. Para uma empresa comum, as duas partes se juntam numa pergunta prática: o que dá para provar sobre o texto que ela publica?
E a resposta quase sempre é: menos do que se imagina. Um documento gerado por IA, publicado sem registro de quem revisou, do que mudou e de quem aprovou, não sustenta nem a proteção do conteúdo nem a defesa quando alguém questiona a origem dele.
O que o órgão de direitos autorais decidiu, exatamente
O relatório de janeiro de 2025 não criou lei nova — concluiu que as regras de direito autoral já existentes davam conta do problema, sem precisar de mudança legislativa. O ponto central: proteção de direito autoral continua exigindo autoria humana. Um comando de texto sozinho, por mais elaborado, não conta como contribuição criativa suficiente para gerar direito sobre o resultado.
Mas o relatório também deixa uma porta aberta, e é essa porta que interessa a qualquer empresa: quando uma pessoa participa da criação de forma substancial — seleciona, edita, reorganiza, combina o resultado da IA com material próprio, decide o que fica e o que sai — a parte que reflete essa decisão humana pode, sim, ser protegida. A linha não é "IA participou, perdeu a proteção". A linha é "quanto da decisão criativa foi de uma pessoa, e dá para provar isso depois?".
Essa segunda pergunta é exatamente onde a maioria das empresas não tem resposta pronta. Um documento gerado por IA e publicado sem nenhum registro de quem revisou, o que mudou e quem aprovou não tem como provar autoria humana suficiente — nem para fins de proteção, nem para fins de defesa quando algo dá errado.
Como se prova que uma pessoa decidiu

A norma, na prática, virou uma questão de prova. Não basta afirmar que houve revisão humana: é preciso conseguir mostrar, meses depois, quem pegou o rascunho, o que trocou, com que critério e quem liberou a versão final.
A maioria das empresas trata isso como assunto de bom senso. Alguém gera um rascunho, alguém lê, alguém publica — tudo por mensagem, sem rastro. Quando um cliente, um concorrente ou um auditor pergunta de onde veio aquele texto, a empresa depende da memória de quem estava lá.
O contraste com o resto da operação é gritante. Nenhuma empresa aprova um pagamento sem duas assinaturas e um registro, mas publica no próprio site, com sua marca, um texto cuja origem ninguém consegue reconstruir. A diferença é que o pagamento errado aparece no extrato no dia seguinte, e o texto sem dono só aparece quando vira problema.
O que precisa existir na prática
Entre a proteção que o relatório de direito autoral abre e a responsabilidade que o caso canadense confirma, o que protege a empresa nos dois sentidos é a mesma coisa: conseguir mostrar, depois do fato, quem decidiu o quê.
Revisão e aprovação em duas etapas para documentos críticos, com quem escreve separado de quem aprova. Política interna, contrato, comunicado ao mercado — qualquer texto que vira posição oficial da empresa se beneficia de uma etapa humana registrada antes de circular.
Conhecimento da empresa com fontes, para que um texto gerado a partir de material interno cite de onde veio — o que ajuda tanto a apurar um erro quanto a demonstrar depois qual foi a contribuição humana no processo de curadoria daquele material.
Trilha de auditoria de cada etapa: quem gerou o rascunho, quem editou, quem aprovou, quando. É esse registro — não uma alegação feita depois do problema aparecer — que sustenta tanto uma defesa legal quanto um pedido de proteção sobre o conteúdo final.
Acesso conforme o papel de cada pessoa na produção de conteúdo, para que fique claro quem tinha autorização para aprovar o quê, e não apenas quem tecnicamente clicou em "publicar".
É assim que a Skyller foi desenhada: aprovação em duas etapas para conteúdo crítico, com quem escreve separado de quem aprova, e trilha de auditoria de cada etapa desde a geração até a publicação.
Por que isso importa além do risco jurídico

A disputa que a New York Times move contra a OpenAI e a Microsoft desde dezembro de 2023 — hoje na fase de coleta de provas, sem data de julgamento marcada — mostra o outro lado da mesma moeda. O jornal alega que suas próprias reportagens foram usadas sem autorização para treinar sistemas de IA que depois reproduzem parte daquele conteúdo. Em março de 2025, o juiz responsável rejeitou a maior parte dos pedidos de arquivamento da OpenAI, permitindo que as alegações centrais de violação de direito autoral seguissem adiante.
O pano de fundo comum aos três casos — o relatório americano, o tribunal canadense, o processo do jornal — é que ninguém mais trata "foi gerado por IA" como uma resposta que encerra a pergunta. A pergunta certa, nos três casos, é sempre sobre proveniência: de onde veio o conteúdo, quem decidiu usá-lo daquela forma, e existe registro disso. Empresas que já têm esse registro como rotina — não como reconstrução às pressas depois de um problema — chegam a qualquer uma dessas conversas em posição muito mais confortável.
Isso vale tanto para quem produz conteúdo com apoio de IA quanto para quem eventualmente precisa provar que um texto interno é original e protegido. Sem um histórico de quem editou o quê, uma empresa não tem como demonstrar, diante de um cliente, de um concorrente ou de um tribunal, que aquele documento carrega decisão humana suficiente para ser tratado como propriedade sua — o mesmo padrão que o próprio órgão de direitos autorais descreveu em janeiro de 2025.
Um roteiro para revisar antes do próximo texto oficial
Antes de publicar o próximo documento, comunicado ou resposta automática gerada com apoio de IA, vale revisar estes pontos com a área jurídica e de comunicação:
- Existe uma etapa de revisão humana registrada antes de qualquer texto virar posição oficial da empresa? Sem esse registro, não há como provar depois quem decidiu o quê.
- Quem tem autorização para aprovar um documento crítico, e essa pessoa é diferente de quem o redigiu? Juntar as duas funções na mesma pessoa remove a segunda camada de checagem.
- Se um cliente for prejudicado por uma resposta errada de um assistente de IA, a empresa consegue reconstruir em minutos o que foi dito e por quê? O caso canadense mostra que a resposta "a IA errou" não livra ninguém.
- O material usado para treinar ou orientar um assistente de IA interno tem procedência conhecida e documentada? Sem isso, a empresa não sabe se está exposta ao mesmo tipo de disputa que hoje envolve grandes veículos de imprensa.






