Segundo o levantamento The State of Ransomware 2026, feito pela empresa de segurança Sophos com 2.158 responsáveis de TI de empresas atingidas por sequestro de dados em 17 países, o firewall — o equipamento que filtra o que entra e sai da rede da empresa — foi o ponto de entrada em 21% dos ataques que começaram por uma falha explorada, uma senha comprometida ou uma tentativa de descobrir a senha por tentativa e erro. É a terceira porta mais usada, atrás só de um sistema exposto na internet (38%) e do computador de algum funcionário (30%).

O firewall ocupa um lugar diferente dos outros três. Ele fica na borda, entre a empresa e a internet, e enxerga tudo o que entra e sai. Quando um atacante consegue passar por ali, o estrago tende a ser maior: segundo o mesmo levantamento, 59% dos pedidos de resgate em ataques que começaram por uma falha explorada no firewall foram de US$ 1 milhão ou mais, contra 48% de todos os pedidos registrados na pesquisa.

Esse contraste é o que importa para quem aprova o orçamento de TI. O mesmo equipamento comprado para ser a primeira barreira pode virar, sozinho, o motivo de um pedido de resgate maior. E na maioria das empresas pequenas e médias, ninguém consegue dizer com segurança quando foi a última vez que alguém olhou de verdade para o que está configurado ali dentro.

O aparelho que ninguém revisita

O firewall costuma chegar do jeito mais tranquilo possível: o fornecedor instala, testa, libera algumas regras "só por enquanto" para o próprio teste funcionar, e vai embora. O problema é que "por enquanto" raramente tem data para terminar. A regra fica aberta, o firmware fica na versão do dia da instalação, e o único momento em que alguém volta a mexer é quando algo já parou de funcionar — nunca antes disso.

Os dados da Sophos mostram por que esse hábito custa caro. Entre os ataques que atingiram o firewall, a senha comprometida foi a causa mais comum (41%), seguida da falha explorada no próprio equipamento (33%) e da tentativa de adivinhar a senha por tentativa e erro (26%). E é justamente o firewall o alvo preferido desse último método: entre os quatro tipos de equipamento medidos no levantamento, ele foi o mais visado por esse tipo de tentativa, numa taxa de 44% — bem à frente de sistemas expostos, redes privadas de acesso remoto e outros dispositivos de rede.

A questão da senha por tentativa e erro tem uma explicação simples: se ninguém limita quantas vezes alguém pode errar a senha do painel de administração, ou desliga o acesso remoto a esse painel quando ele não é usado, o firewall vira um alvo mais fácil de tentar à exaustão do que forçar a entrada por qualquer outro caminho.

No Brasil, o mesmo levantamento da Sophos, num recorte específico para o país, mostra o valor do resgate pedido subindo: a mediana saltou 63% em um ano, de US$ 392.500 para US$ 640 mil. Não há um recorte específico de quanto disso vem de firewall mal configurado no Brasil, mas o padrão internacional deixa uma pista clara: quando a porta de entrada é um equipamento de borda mal cuidado, o valor pedido tende a subir, não a cair.

Por que ter o aparelho ligado não basta

O jeito comum de lidar com o firewall é comprar, instalar e considerar o assunto resolvido. A luz do equipamento está acesa, o tráfego passa por ele, e isso já parece prova de que a rede está protegida. É esse raciocínio que os dados da Sophos desmontam.

No levantamento, 61% das vítimas disseram que o próprio firewall identificou o ataque antes de o sequestro de dados ser executado. Outros 32% disseram que ele só identificou depois — quando o estrago já tinha começado. E 7% relataram que o equipamento não identificou o ataque em nenhum momento. A diferença entre esses três grupos não é sutil: quando o firewall identificou cedo, 50% das empresas tiveram dados sequestrados; quando identificou tarde, esse número sobe para 65%; quando não identificou nada, chega a 71%.

Ou seja: o firewall só cumpre o papel de linha de defesa quando alguém garante que ele está configurado para enxergar o que é estranho e mandar esse aviso para uma pessoa de verdade — não só registrar num relatório que ninguém abre. Um equipamento com a licença de filtragem vencida, com regra velha demais para fazer sentido e sem ninguém acompanhando o alerta se comporta, na prática, como se não estivesse ali.

Esse tipo de reação também aparece do outro lado, quando a empresa descobre a falha e a solução vira comprar mais uma caixa — outro equipamento, outro contrato — sem mudar a rotina de quem cuida do que já existe. O equipamento novo herda o mesmo destino do antigo: instalado, esquecido, revisado só quando quebra.

O que precisa existir na prática

Um firewall bem cuidado se apoia em rotina, não em confiança na caixa. Os mecanismos abaixo são o que costuma faltar quando ninguém tem esse equipamento como responsabilidade fixa.

Revisão periódica de cada regra aberta. Toda regra liberada — inclusive a que foi aberta "só para o fornecedor testar" — tem uma data de criação e um motivo. Se ninguém sabe mais por que ela existe, ela deveria ter sido fechada há muito tempo.

Firmware do equipamento sempre na versão atual do fabricante. O firewall é um programa rodando num equipamento de rede, e recebe correção de segurança como qualquer outro programa. Ficar na versão da instalação é ficar exposto a toda falha descoberta depois daquele dia.

Assinatura de filtragem de conteúdo renovada e acompanhada. Boa parte da capacidade de bloquear ameaça nova depende de uma licença que precisa ser renovada — e que, quando vence, não avisa ninguém sozinha. Alguém precisa acompanhar essa data como acompanha qualquer outro contrato.

Alerta chegando a uma pessoa que olha na hora, não só um relatório guardado. Um sinal de acesso fora do padrão, ou de tentativa de senha repetida, precisa virar aviso para alguém — cruzado com o que acontece no resto da rede — e não só uma linha a mais num arquivo de log.

Um único responsável pelo equipamento. Quando quatro pessoas diferentes já mexeram na configuração ao longo dos anos e nenhuma documentou o que fez, ninguém consegue dizer com segurança o estado atual do firewall — só o estado que cada um lembra.

É assim que a Skills IT trabalha: com revisão periódica das regras do firewall, firmware sempre atualizado e um único responsável acompanhando o que muda ali, em vez de deixar o equipamento na configuração do dia da instalação.

O ganho para a empresa

O ganho de manter o firewall como rotina, e não como caixa esquecida, aparece em dois lugares. O primeiro é a chance menor de ele virar a porta de entrada — e, se virar mesmo assim, a chance maior de ele avisar cedo, quando a diferença entre 50% e 71% de dados sequestrados ainda pode ser decidida a favor da empresa.

O segundo é financeiro, e vale para negócio de qualquer porte: segundo o estudo de impacto de violações de dados que acompanha o relatório da Verizon de 2026, nos casos mais extremos — os 2,5% piores — o prejuízo de um vazamento de dados já consumiu mais de 7% da receita da empresa afetada. Para uma empresa pequena ou média, sem caixa para absorver um golpe desse tamanho, essa fatia da receita é o equivalente a meses de folha de pagamento.

Existe ainda o ganho menos visível: previsibilidade. Uma empresa que sabe o estado do próprio firewall consegue planejar a renovação da licença, o custo da revisão e a troca de equipamento com antecedência — em vez de descobrir tudo isso no meio de uma investigação, sob pressão, sem tempo para comparar preço ou fornecedor.

Quando o firewall identificou o ataque antes do sequestro de dados, 50% das empresas tiveram dados criptografados; quando ele não identificou nada, esse número chegou a 71%.

Sophos, The State of Ransomware 2026

Um roteiro para começar

Antes de assumir que o firewall está resolvido só porque está ligado, vale levar estas perguntas à próxima reunião de TI:

  1. Alguém sabe dizer, sem pesquisar, quando foi a última revisão das regras do firewall? Se a resposta é "faz tempo" ou "não sei", a revisão já devia ter acontecido.
  2. A assinatura de filtragem de conteúdo está ativa, com data de renovação marcada em algum lugar? Uma licença vencida sem ninguém perceber é a mesma coisa que não ter licença nenhuma.
  3. O firmware do equipamento está na versão mais recente indicada pelo fabricante? Se a resposta é "não sei quando foi a última atualização", essa é a próxima tarefa, não uma pergunta em aberto.
  4. Quem recebe o alerta do firewall quando algo foge do padrão, e o que essa pessoa faz com ele? Um alerta que só fica registrado não protege ninguém.
  5. Existe alguma regra aberta há anos, "só para aquele teste", que ninguém lembra mais por quê? Regra sem dono é a porta que fica destrancada por engano.